terça-feira, outubro 07, 2014
Doação
Quando a gente escolhe alguém para viver a vida, caminhar junto, é uma decisão de doação.
Você se doa para o outro. Doa carinho, tempo, corpo, alma. Você doa amor.
Há os mais egoístas que não se doam muito, que preferem receber.
Há os receosos porque já foram feridos em outros carnavais.
Eu não sabia que eu era assim, doadora universal. Eu abro mãos dos meus compromissos, eu mudo de endereço, mudo rotas dos meus sonhos, mudo até de país.
E eu me contento com tão pouco. Uma ligação declarando o que se sente, um convite inesperado, uma surpresa no fim da tarde, ou nada disso eu espero porque os homens são desligados e blá blá blá. Mas pelo menos eu gostaria de me sentir olhando para o mesmo horizonte, caminhando para o mesmo lugar, sabendo que as minhas constantes doações de afeto sejam quase como depósitos para uma vida feliz.
Hoje meu coração dói, e meus olhos enchem de lágrimas ao escrever essas palavras.
Sim, sou sensível, mas acima de tudo sou muito sincera comigo mesma. Traduzo o que sinto para essas linhas porque não quero desabar com opiniões alheias. Quero mostrar para mim de uma forma racional, que doar nem sempre é receber. Sei que uma mão não deve cobrar o que a outra deu. Mas ainda não sou tão pura, santa. Eu quero receber.
Eu quero me sentir bem, segura, valorizada. Eu não procuro em outros rostos o que posso encontrar no seu. Eu não permito que minha energia atraia outros corpos. Porque eu estou presente, eu estou aqui.
Tenho um grande defeito, quando me sinto triste, eu geralmente vou embora, assim, sem olhar para trás. Quando sinto que o que tenho para doar não é suficiente para o outro.
domingo, junho 22, 2014
Há tempo que tento escrever sobre você.
Mas não sei, quando chega na segunda linha é como se eu despertasse: Imbecil. Quem vai querer ler isso?
Eu. Eu vou querer ler. Isso pode levar anos, meses, não levar. Mas to aqui, na terceira linha bem imatura tentando falar de você.
E por que? Porque desejo que você leia sem eu pedir. Que você lembre que um dia eu lhe disse que tenho um blog e que no início do nosso encontro apaixonado você elogiou.
Poucos meses se passaram desde que o primeiro frio na barriga surgiu. Sou muito emoção, perdão por não agir racionalmente como você.
Ou sei lá, eu seja bem racional, porque consigo entender que é tudo tão limitado, que amanhã para nós dois pode não existir.
Eu não quero chorar por nós. Eu não quero ter que dizer adeus. E nem quero ser eu a abandonada. Quero caminhar contigo, te ter como amigo, namorado, amante.
Em toda nossa vida, há de existir outros olhares, corpos, atrações. Mas eu quero escolher ficar com você.
Quero apertar tua mão e dormir ao teu lado.
O sexo pode surgir em uma noite, em duas não, mas quando isso acontecer, quero ter certeza que não é ausência de amor.
Falando assim, me parece que sou uma neurótica, insegura e carente. Domingo a noite me sinto assim, agora me sinto assim, mas sei que amanhã meu orgulho me acalma, levanta minha cabeça e passa batom. Ele desfila comigo e atrai todos os olhares. Mas não quero que ele me domine, que meu ego me supere. Quero amar, porque esse é o único sentido da vida. O amor.
A água que gasto
Enquanto eu tomava banho e a água quente escorria pelas minhas costas eu me culpava.
Um misto de dor, remorso, tristeza e angústia.
A vó que eu não visito. A água que gasto. A cadela que peguei da rua e adoeceu nas minhas mãos. A água que gasto. A minha ignorância do mundo. A água que gasto. Os trabalhos da faculdade que tenho atrasado. A água que gasto. O jeito grosso que agi com meus pais. A água que gasto.
Olho para os lados e vejo paredes e lembro dos loucos dos hospícios. Me sinto em um, com a maldita TV ligada ditando felicidade.
Essa confusão me perturba, essa insegurança, esse frio que não me deixa sair do banho, a água que eu gasto.
Eu quero sair desse chuveiro mas não consigo.
Tenho medo, medo de ser abandonada, medo de perder para a gostosa da festa, medo de ser.
Culpa por comer pães, por não ter ido a academia, por roer as minhas unhas, por não ter feito um agradecimento ao superior. Culpa por não ter lido coisas úteis e ter ficado no facebook, culpa por não ter sido um ser humano melhor. A água que gasto.
Essa água quente nas minhas costas me acalma, mas meus pensamentos me assustam.
O dente que precisa de dentista, o cabelo de tratamento, o corpo de atividade, o cérebro de descanso. A água que gasto.
domingo, março 16, 2014
A tristeza não é permitida. Ela não ganha like, ela não dança no ritmo das formaturas.
A tristeza quando bate não agrada nem mesmo quem a recebe. Ela afasta, ela reprime, ela não permite movimentos bruscos. Quem a percebe prefere evitar.
Você vale muito alegre. O sorriso atrai, o sorriso conforta as presenças, estampa capas de revistas, agrega, compartilha, une, produz selfie.
A tristeza não.
Ela não é aceita sem uma tragédia. Ela dá sono a suas companhias, ela faz os olhos se distanciarem, olharem para horizontes com mais vida. Não há quem desconheça a tristeza, mas há quem finja não senti-la. Fácil, é tomar a tristeza junto com o copo plástico transbordando espuma e álcool. Fácil, deixá-la de lado e pular junto com os pares.
Quando ela chega eu a deixo tomar conta, é mais forte que eu. E isso também é vida.
Há quem defenda que não pode deixar ela se instalar, que deve-se esquecer, dançar para espantar. Mas eu, como um corpo em transe permito que ela aposse. Numa espécie de aceitação do destino.
Não há patologia, não há morte, não há fome, não há traição, não há motivos. Ela simplesmente acontece. Prazer, não sou um espírito elevado. Se fosse, não estaria aqui junto contigo.
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