domingo, junho 22, 2014

A água que gasto

Enquanto eu tomava banho e a água quente escorria pelas minhas costas eu me culpava. Um misto de dor, remorso, tristeza e angústia. A vó que eu não visito. A água que gasto. A cadela que peguei da rua e adoeceu nas minhas mãos. A água que gasto. A minha ignorância do mundo. A água que gasto. Os trabalhos da faculdade que tenho atrasado. A água que gasto. O jeito grosso que agi com meus pais. A água que gasto. Olho para os lados e vejo paredes e lembro dos loucos dos hospícios. Me sinto em um, com a maldita TV ligada ditando felicidade. Essa confusão me perturba, essa insegurança, esse frio que não me deixa sair do banho, a água que eu gasto. Eu quero sair desse chuveiro mas não consigo. Tenho medo, medo de ser abandonada, medo de perder para a gostosa da festa, medo de ser. Culpa por comer pães, por não ter ido a academia, por roer as minhas unhas, por não ter feito um agradecimento ao superior. Culpa por não ter lido coisas úteis e ter ficado no facebook, culpa por não ter sido um ser humano melhor. A água que gasto. Essa água quente nas minhas costas me acalma, mas meus pensamentos me assustam. O dente que precisa de dentista, o cabelo de tratamento, o corpo de atividade, o cérebro de descanso. A água que gasto.

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